O clima vem ajudando e os trabalhos de plantio do trigo estão em plena movimentação no Brasil. Ainda escaldados pelas dificuldades enfrentadas num ano em que as condições climáticas foram totalmente adversas e as variáveis formadoras de preços achataram as cotações no âmbito doméstico, os triticultores apostam na contribuição de São Pedro e nos preços mínimos estipulados pelo governo para auferir resultados melhores. Segundo números de Safras & Mercado, o Brasil deve cobrir cerca de 2,23 milhões de hectares com o trigo nesta safra, contra 2,38 milhões de hectares da anterior (-6%). Esta área corresponde a 89% do total coberto pelas culturas de inverno no país. Isso mostra que apesar das dificuldades enfrentadas, o cereal ainda é incontestavelmente a principal atividade econômica da agricultura no inverno. A produção estimada para o próximo ciclo comercial é de 5,5 milhões de toneladas, o que corresponde a um acréscimo de 10% em relação aos 5 milhões de toneladas da safra velha. Com uma área menor, isso será possível graças a estimativa de aumento da produtividade, de 2.104 para 2.462 quilos por hectare (+17%). Estes são números preliminares, cuja consolidação depende do comportamento climático. A grande pergunta que fica é em relação aos preços que os produtores receberão pela produção e, mais que isso, se continuarão enfrentando dificuldade na comercialização.
Para responder a esta questão é preciso entender a dinâmica de formação de preços no mercado nacional de trigo. Sendo um dos maiores compradores do cereal no mundo, a formação de preços no Brasil é dada pela paridade de importação. Os preços que o trigo importado chega aos moinhos brasileiros é que determinarão quanto os produtores nacionais poderão pedir por sua mercadoria. Ou seja, o Brasil é tomador de preços no mercado mundial. Já as cotações no âmbito global são balizadas pelas Bolsas norte-americanas, em especial a de Chicago (CBOT), para trigo soft e a de Kansas para o hard. Dado um cenário fundamental de abastecimento de trigo, as cotações nas Bolsas oscilam, e o restante do mundo segue esta movimentação. Vale lembrar que os EUA são os maiores exportadores de trigo para consumo humano e, por isso, tem um peso significativo sobre o comportamento das Bolsas. Contudo, estas repercutem o cenário mundial como um todo. A Argentina, que historicamente é um dos grandes exportadores mundiais, também é tomador de preços no mundo. Exemplo disso é o que vem ocorrendo neste ano de 2010. O Mercosul apresenta escassez de oferta. Com isso, as suas cotações operavam em alta, enquanto as Bolsas norte-americanas recuavam. Porém, este movimento inverso tem como limite o momento em que a oferta deste país deixa de ser competitivo no Brasil. No mês de maio, por exemplo, o trigo argentino chegaria à capital paulista cotado a US$ 297.00/t. O Hard de Kansas, mesmo com os impostos de importação, chegaria a US$ 287.00/t. Ou seja, o trigo argentino não é competitivo e, para ser vendido para o Brasil, teria que reduzir a sua pedida. Já os preços são formados pela paridade de importação com a opção mais acessível. Neste momento, seria com o norte-americano. Um produtor do interior do Paraná, por exemplo, que possuísse um trigo com a qualidade do Argentino ou do hard de Kansas, teria que disputar a preferência da indústria com estes dois. No exemplo de maio, o argentino estaria fora, e teria que competir com o dos EUA. Ou seja, o triticultor nacional seria obrigado a vender no FOB interior por uma cotação que deduzidos os custos com frete, impostos e demais encargos, chegasse aos moinhos paulistanos a US$ 287.00/t. Neste exemplo, venderia a US$ 245.00/t no FOB.
Desta forma, entendemos como se forma o primeiro pilar que sustenta os preços no Brasil. No mercado mundial, fatores endógenos ao abastecimento (quadro de oferta e demanda global de trigo) e exógenos (comportamento de outras commodities agrícolas, do petróleo, do dólar entre outros movimentos macroeconômicos) formarão os preços nas Bolsas norte-americanas, que por sua vez, balizarão as cotações em todos os mercados pelo mundo afora. Tanto Brasil, quanto a Argentina são tomadores de preços. A diferença é que a Argentina forma seus preços internos pela paridade de exportação, ou seja, o quanto o mercado externo estará pagando é que determina quanto os produtores argentinos receberão. No Brasil quem dita os preços é a paridade de importação. Isto é, a cotação que o cereal importado chega ao país é que determina a quanto o produtor nacional poderá negociar o seu produto. De uma forma metafórica podemos dizer que os agentes do mercado brasileiro de trigo são meros passageiros de um trem. Este trem é o mercado argentino, o qual anda nos trilhos das Bolsas norte-americanas e, estes trilhos subirão ou descerão em função do “relevo” do mercado mundial do cereal.
O outro pilar de sustentação para a formação de preços no Brasil é o câmbio (R$/US$), que vai determinar a intensidade e a direção dos efeitos das cotações internacionais no país. O conhecimento empírico mostra que os produtores nacionais apenas receberão cotações que cobrem os custos de produção em momentos de real desvalorizado, como ocorreu entre 2002 e 2003, ou em momentos em que os preços internacionais ficam demasiadamente elevados, como na temporada 2007/08. Depois da crise financeira internacional houve uma queda acentuada dos preços internacionais. Num primeiro momento ela não foi sentida, porque o temor dos investidores resultou numa retirada de dólares do Brasil e desvalorizou o real em relação ao dólar. Assim, apesar da queda internacional, eram necessários mais reais para comprar a mesma quantidade de trigo em dólares. Com isso, no início de 2009 o mercado chegou a operar com preços acima de R$ 530,00/t no Paraná. Porém, a partir de abril o real voltou a valorizar e os preços em dólar seguiram achatados por recordes de produções mundiais.
E, é este cenário que devemos encontrar para a comercialização da safra que estamos plantando agora. O comportamento das cotações seguirá dependendo da trajetória destas duas variáveis. Com a entrada da safra do Hemisfério Norte, a pressão sobre os preços internacionais seguirá forte. No final do mês de maio os preços internacionais do trigo cederam a pressão fundamental e à fatores exógenos. O fraco cenário fundamental de grandes estoques e a escassez de demanda já é conhecido do mercado e deve ser verificado durante o próximo ano comercial mundial, entre junho de 2010 e maio de 2011. Na Bolsa de Chicago o contrato de julho é cotado a 458 cents/bushel (c/b), com queda de 10 c/b. Com o prêmio mantido em 35 c/b, no Golfo do México o cereal foi cotado a 493 c/b. Em relação ao mesmo período do mês anterior a queda é de 28 c/b e à igual período do ano passado 98 c/b. Em Kansas o contrato de julho fechou com queda de 11,3 c/b, cotado a 482. O prêmio recuou 5 c/b, derrubando a cotação do Golfo em 16,3 c/b, para 527. Com isso, no mês o recuo é de 9 c/b e frente ao mesmo período do ano passado de 219,3. Além disso, o milho que tinha dado algum suporte também despencou no dia 28 de maio, levando o trigo e a soja. As dúvidas em relação a economia da Europa também vem refletindo nos mercados de forma geral. Perdas no petróleo e a valorização do dólar fecham o cenário de queda.
Diante disso, uma eventual recuperação das cotações no Brasil hoje dependerá de alguma modificação na política de tributos de importação (TEC) ou no comportamento cambial. No primeiro caso, com o cereal extra-Mercosul encarecido por uma eventual elevação da TEC, existiria um espaço maior para os preços subirem no Brasil. No segundo, seria necessária uma desvalorização do real, a qual teria como resultado o encarecimento das importações. Com a crise grega, o dólar comercial rompeu a resistência de R$ 1,80. Dada as incertezas de um ano eleitoral no Brasil e as dificuldades econômicas de países da região do Euro, hoje se pode dizer que uma eventual recuperação dos preços no Brasil seria mais factível pelo lado cambial do que pelos preços internacionais, onde a pressão fundamental é incontestável. Por outro lado, a economia brasileira tem mostrado firmeza em seus fundamentos, com altos volumes de reservas internacionais e uma das maiores taxas de juros reais do mundo.
Em suma, até o momento, as indicações futuras do dólar na BM&F e os contratos de trigo negociados nas Bolsas norte-americanas sinalizam para mais um ano em que os preços mínimos estabelecidos pelo governo serão os alvos a serem buscados como meta de uma boa negociação por parte dos produtores. E, em relação à isso, o mercado segue com as atenções voltadas para a possível modificação do preço mínimo do trigo, que pode trazer mudanças significativas para a expectativa de preços em nível de produtor. O Conselho Monetário Nacional (CMN) adiou a definição dos preços mínimos do milho, trigo e feijão para a safra 2010/11, mas poderá decidir por uma redução nos valores nos próximos dias. A provável alteração deve gerar descontentamento no setor produtivo, em especial os produtores que já realizaram os trabalhos de plantio, de olho na possibilidade de vender aos preços mínimos estipulados.