A semente é um dos principais veículos de tecnologia, que passa a ser disponibilizada ao produtor a baixo custo e garante o estabelecimento de plantas adaptadas aos mais variados ambientes e estresses bióticos e abióticos. Isso pode ser comprovado pela relação direta entre a taxa de utilização de sementes e os índices de produtividade registrados para as principais culturas.
No caso da soja, a produtividade verificada em Mato Grosso, que apresenta uma taxa de utilização de sementes superior a 90%, foi de 3,1 t/ha na safra 2007/2008. Entretanto, no Rio Grande do Sul, cuja taxa de utilização de sementes é de apenas 30%, a produtividade no mesmo período foi de 2 t/ha. Todavia, desde a aprovação da nova Lei de Sementes, em 2003, e de sua regulamentação, em 2004, a taxa de utilização de sementes certificadas das principais culturas vem caindo.
No último Congresso Brasileiro de Sementes, ocorrido de 31 de agosto a 3 de setembro de 2009, em Curitiba/PR, o pesquisador da Embrapa Soja José de Barros França Neto destacou que "a nova lei abriu a possibilidade de produção de sementes próprias sem definir limites claros para a produção, o que acabou estimulando produtores a entrar na ilegalidade porque, além de produzir grãos para consumo próprio, passaram a comercializar para terceiros".
Assim, a nova situação vem estimulando o desenvolvimento de um sistema de produção de sementes paralelo ao sistema formal, com graves consequências do ponto de vista técnico, econômico e dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, sobretudo relacionada ao lançamento de cultivares.
Motivada por uma economia que muitas vezes não atinge 5% do custo de produção, a utilização de sementes piratas pelo agricultor compromete não apenas o retorno dos investimentos, mas também a continuidade dos programas de melhoramento genético, limitando o lançamento de cultivares superiores, mais adaptadas aos diversos ambientes e tolerantes ou resistentes às principais pragas e doenças.
Não se pode deixar de mencionar o risco de introdução de pragas e doenças em áreas indenes, o que pode inviabilizar o potencial de produção futura. O recrudescimento de doenças já banidas em algumas culturas de importância econômica, como Cercospora sojina (mancha olho-de-rã) em soja e a disseminação de Sclerotinia sclerotiorum (mofo branco) em áreas livres da doença já foram relatados como consequências da utilização de sementes piratas.
O Brasil conta com uma indústria de sementes bem estabelecida, amparada por excelentes instituições públicas e privadas de pesquisa e por um sistema legal que, embora ainda apresente falhas, está comprometido com a qualidade do produto ofertado no mercado. A opção pela utilização de sementes de qualidade superior deve ser, portanto, o ponto de partida para a sustentabilidade do agronegócio.